1
Quebrar
o silêncio
e
depois recolher
os
pedaços
testar-lhes
o corte
o
brilho
cego
2
Pagar
para ver
e
receber
em
troca
vistas
parciais
uns
cobres
de
paisagem
3
Dobrar
a língua
e
ao desdobrá-la
deixar
cair
uma
a uma
palavras
não
ditas
4
Perder
a hora
e
encontrá-la depois
num
intervalo
de
teatro
nos
cantos empoeirados
do
domingo
entre
um telefonema e outro
dentro
do táxi
5
Dar
à luz
e
então sondar
num
átimo
de
abismo
–
como um espeleólogo
um
cosmólogo
um
cenógrafo
um
guarda-noturno –
a
própria
escuridão
6
Perder
a cabeça
e
então buscá-la
nos
últimos lugares
em
que esteve
dentro
da touca
de
banho
sobre
o travesseiro
entre
os joelhos
entre
as mãos
na
casa demolida
da
infância
sobre
suas coxas
mornas
ainda
7
Tirar
fotografias
e
depois devolvê-las
àqueles
de quem as tiramos
à
mulher fora de foco
em
seu vestido violeta
à
casa de janelas verdes
às
paisagens
tomadas
emprestadas
à
casca
de
cada coisa
aos
vários ângulos
da
Torre Eiffel
ao
cachorro morto
na
praia
8
Cortar
relações
e
depois voltar-se
verificar
se o que restou
suporta
remendo
demorar-se
sobre
a cicatriz
do
corte
(guardar
por
precaução
a
tesourinha
para
mais tarde)
9
Esperar
horas
a fio
e
então
desvencilhar-se
das
coisas tecidas
na
espera
dos
ponteiros do relógio
cada
um mais lento
que
o outro
dos
pelo menos
dez
cigarros
das
poltronas de mogno
uma
delas
vazia
10
Quebrar
promessas
e
ao recolher os cacos
discerni-los
entre
aqueles
do
silêncio
quebrado
por
Ana Martins Marques
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