- Do Instagram “Fragmentos - Caderno de Notas”
@fragmentoscadernodenotas
Havia uma estrela olhando o quintal.
Não era estrela de céu.
Era dessas que a gente encontra quando alguma coisa insiste em nascer mesmo sem
ninguém mandar.
Debaixo dela, os cogumelos fizeram uma multidão.
Não sei se multidão é o nome certo para tanta gente miúda que se encontra sem
se conhecer.
Uns chegaram a pé.
Outros não chegaram.
Havia estudante sem dinheiro guardando no bolso o caminho
que não pôde fazer.
Havia quem chegasse diante da escolha trazendo consigo o direito de dizer não
sem precisar explicar o silêncio.
E havia esforços mil.
Os cogumelos sabem disso.
Crescem juntos como quem protege os seus sem fazer discurso sobre proteção.
Um nasce perto do outro e, de repente, a terra parece menos sozinha.
Depois veio o caracol.
Com sua casinha nas costas, atravessou devagarinho a pedra,
o musgo, a manhã.
Parecia um.
Só um.
Mas atrás dele havia a multidão.
Cada qual levando sua pequena casa, seu medo, seu desejo, seu pedaço de chão.
E foi então que compreendi: às vezes somos um porque ainda não conseguimos
enxergar quantos somos.
Devagarinho, a gente se encontra.
Devagarinho, a terra se mexe.
Devagarinho, milhões de casinhas fazem caminho.
O Brasil merece vida.
Talvez a vida seja isso: uma estrela acesa no quintal, um cogumelo nascendo ao
lado de outro, um caracol que não tem pressa, e uma multidão descobrindo que
ninguém caminha sozinho.
Um poema para furar a bolha da Meta. Quem entendeu sabe o que tem que comentar.

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